A feminização da área contábil: um estudo qualitativo básico

  • Luiz Carlos Lemos Júnior Coordenador do Curso de Graduação em Administração na Universidade Presbiteriana Mackenzie
  • Nereida Salette Paulo da Silveira Administrador da Qualidade na Alcalá Assessoria Contábil e Empresarial Ltda.
  • Rafael Barufaldi Santini Professor Assistente em regime de dedicação integral na Universidade Presbiteriana Mackenzie
Palavras-chave: Gênero, Contabilidade, Mulher, Estereótipo, Papéis Sociais.

Resumo

Estudos suportam que, quando o percentual de posições, ocupadas por mulheres em uma profissão, aumenta a remuneração total e o prestígio desta diminui. No Brasil, o processo de feminização das profissões tem sido amplamente investigado na área de educação, mas não foram identificados estudos nacionais na área contábil. Este estudo utiliza a proposta analítica de Yannoulas (2011) que separa o processo em feminilização, predominância numérica de mulheres, e feminização, associação de atividades como naturalmente femininas. Por meio de pesquisa exploratória e descritiva, este estudo buscou compreender, pela ótica das mulheres, como o processo de feminização e feminilização das ocupações em contabilidade está relacionado aos estereótipos de gênero. A pesquisa foi realizada em um escritório de contabilidade com a prevalência de mulheres no quadro de funcionários (82,5%). Responderam a entrevista estruturada 28 de 33 mulheres. Por meio da análise de conteúdo proposta por Flores (1994) a interligação dos processos de feminização e feminilização foi constatada. A divisão de atividades entre o operacional (ofício) e analíticas (profissão) permeia o processo de distribuição de poder e de oportunidades entre homens e mulheres. Sob a perspectiva das relações de gênero observou-se a existência de estereótipos permeando a compreensão de que as mulheres têm uma melhor preparação para as atividades operacionais da área, por serem mais detalhistas e dóceis do que o homem. Por meio da naturalização discursiva dos papéis de gênero e da segregação das atividades operacionais e analíticas, mesmo com o crescente número de mulheres na profissão a desigualdade institucionalizada é mantida na contabilidade.

Biografia do Autor

Luiz Carlos Lemos Júnior, Coordenador do Curso de Graduação em Administração na Universidade Presbiteriana Mackenzie
Mestre em Contabilidade pela UFPR - Universidade Federal do Paraná
Nereida Salette Paulo da Silveira, Administrador da Qualidade na Alcalá Assessoria Contábil e Empresarial Ltda.
Bacharel em Administração de Empresas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie
Rafael Barufaldi Santini, Professor Assistente em regime de dedicação integral na Universidade Presbiteriana Mackenzie
Doutora em Administração de Empresas na Universidade Presbiteriana Mackenzie

Referências

Adams, T. L. (2005). Feminization of Professions: The Case of Women in Dentistry. Canadian Journal Of Sociology, 30(1), pp. 71-94. doi:10.1016/S0277-9536(01)00054-5.
Azevedo, R. F. (2010). A percepção pública sobre os contadores: bem ou mal na foto? Universidade de São Paulo, (Dissertação de Mestrado) Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade. São Paulo: Universidade de São Paulo.
Barker, P. C., & Monks, K. (. (1998). Irish women accountants and career progression: a research note. Accounting, Organizations and Society, 23(8), 813-823. doi:10.1016/S0361-3682(98)00009-9
Berger, P. L., & Luckmann, T. (2005). A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento. (25 ed.). Petrópolis: Vozes.
Betiol, M. I. (2000, Setembro). "Ser administradora é o feminino de ser admnistrador? XXIV ENANPAD - Encontro da associação nacional de pós-graduação em administração. 24. Florianópolis, setembro de 2000: Anais do XXIV do ENANPAD.
Blay, E. A. (2001, março/maio). Um caminho ainda em construção: A igualdade de oportunidades para as mulheres. Revista USP, (49), 82-97.
Broadbent, J., & Kirkham, L. (2008, Agosto). Glass ceilings, glass cliffs or new worlds? Accounting, Auditing & Accountability Journal, pp. 465-473. doi:10.1108/09513570810872888
Bruschini, C., & Lombardi, M. (2000, julho). A Bipolaridade do trabalho feminino no Brasil contemporâneo. Cadernos de Pesquisa(110), 67-104. doi:10.1590/S0100-15742000000200003
CFC. (2013). Domínio das contadoras. Retrieved 4 9, 2014, from CFC - Conselho Federal de Contabilidade: http://www.portalcfc.org.br/noticia.php?new=11646
CFC. (2014). Quantos somos. Retrieved 05 23, 2014, from CFC - Conselho Federal de Contabilidade: http://www3.cfc.org.br/spw/crcs/ConsultaPorRegiao.aspx?Tipo=0
Flores, J. G. (1994). FLORES, Javier Gil. Análisis de datos cualitativos: aplicaciones a la investigación educativa. Barcelona: Promociones y Publicaciones Universitarias, PPU.
Godoi, C. K., & Balsini, C. P. (2006). Pesquisa qualitativa nos estudos organizacionais brasi-leiros: uma análise bibliométrica. In C. K. Godoi, R. Bandeira-de-Mello, & A. B. Silva, Pesquisa qualitativa em estudos organizacionais: paradigmas, estratégias e métodos. São Paulo: Saraiva.
Godoy, A. S. (2010). Estudo de Caso Qualitativo. In C. K. Godoi, R. B. Mello, & A. B. Silva, Pesquisa qualitativa em estudos organizacionais: Paradigmas, estratégias e métodos (2° Edição ed., pp. 115-143). Saraiva.
Heilman, M. E. (2012). Gender stereotypes and workplace bias. New York: Elsevier.
Hirata, H., & Kergoat, D. (2007). Novas configurações da divisão sexual do trabalho. Cadernos de Pesquisa, 37, pp. 595-609. doi:10.1590/S0100-15742007000300005
Hull, R. P., & Umansky, P. H. (1997). An examination of gender stereotyping as an explanation for vertical job segregation in public accounting. Accounting, Organizations & Society, 22, pp. 507-528. doi:10.1016/S0361-3682(96)00028-1
Humphrey, R., Moore-Johson, M. V., & Pullum, B. (2013). An investigation of wages as gender shifts in the accounting profession. International Journal Of Business, Accounting, & Finance, 7(1). Retrieved Novembro 22, 2013, from Business Source Complete.
IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. (2010). Censo Demográfico de 2010: Ferultado da Amostra - Famílias e Domicílios. Censo 2010, IBGE - INstituto Brasileiro de GEografia e Estatística, Rio de Janeiro. Retrieved 06 23, 2014, from http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2010/familias_e_domicilios/familias_e_domicilios_tab_pdf.shtm
IBGE. (2010). O Trabalho da Mulher Principal Responsável no Domicílio. Pesquisa Mensal de Emprego, IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
INEP. (2014). Censo da Educação Superior 2012. Resumo Técnino, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, Coordenação-Geral do Censo da Educação Superior, Brasília. Retrieved 12 4, 2014
Instituto Ethos. (2010). Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil e Suas Ações Afirmativas. Relatório de pesquisa, Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, São Paulo.
Kirkan, L. M., & Loft, A. (1993). Gender and the construction of the professional accountant. Accounting Organizations and Society, 18(6), pp. 507-558. doi:10.1016/0361-3682(93)90002-N
Komori, N. (2008). Towards the feminization of accounting practice. Accounting, Auditing & Accountability Journal, 21(7), pp. 507-538. doi:10.1108/09513570810872905.
Lehman, C. R. (1992). “Herstory” in accounting: The frst eighty years*. Accounting, Organizations and Society, 17(3/4), 262-285. doi:10.1016/0361-3682(92)90024-M
Lima, L. L. (2011). A masculinização da mulher líder no Brasil: quatro estudos sobre estereótipos de gênero e protótipos de liderança. Fundação Getúlio Vargas - São Paulo, (Dissertação de Mestrado) Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresa. São Paulo: Fundação Getúlio Vargas.
Lopes, M. J., & Leal, S. M. (2005). A feminização persistente na qualificação profissional da enfermagem brasileira. Cadernos Pagu, 24(1), pp. 105-125. doi:10.1590/s0104-83332005000100006
Mello, A. C. (2012, Maio). As Mulheres na Segunda Guerra Mundial: Uma breve análise sobre as combatentes soviéticas. Encontro de Historiadores Militares. I, pp. 63-84. Resende, 18 a 20 de maio 2012: Anais do Encontro de Historiadores Militares.
Merriam, S. B. (1998). Qualitative research and case study applications in education. San Francisco (CA): Jossey-Bass.
Pas, B. P., Doorewaard, H., Eisinga, R., & Lagro-Janssen, T. (2011). Feminisation of the medical profession: a strategic HRM dilemma? The effects of family-friendly HR practices on female doctors' contracted working hours. Human Resource Management Journal, 21(3), pp. 285-302. doi:10.1111/j.1748-8583.2010.00161.x
Quitete, J. B., Vargens, O. M., & Progianti, J. M. (2010). Uma Análise Reflexiva do Feminino das Profissões. História da Enfermagem - Revista Eletrônica, 1, pp. 223-239. Retrieved 05 04, 2014, from http://www.abennacional.org.br/centrodememoria/here/n2vol1ano1_artigo1.pdf
Rabelo, A. O., & Martins, A. M. (2006). A mulher no magistério brasileiro: um histórico sobre a feminização do magistério. VI Congresso Luso Brasileiro de História da Educação (pp. 6167-6176). Uberlândia - MG: Anais do VI Congresso Luso Brasileiro de História da Educação.
Roche, C. L. (2003, Jul). Feminisation of the legal profession in Venezuela: its meaning for the profession and for women lawyers. International Journal of the Legal Profession, 10(2), pp. 209-226. doi:10.1080/09695950410001691690
Runté, M., & Mills, A. J. (2006). Cold War, chilly climate: Exploring the roots of gendered discourse in organization and management theory. (S. Publications, Ed.) Human Relations, 59(5), 695-720. doi:10.1177/0018726706066174
Santos, R. V., & Ribeiro, E. P. (2006). Diferenciais de rendimentos entre homens e mulheres no Brasil revisitado: explorando o "teto de vidro". Artigo baseado em Dissertação de Mestrado, Centro Universitario Newton Paiva/MG e PPGE/UFRGS. Retrieved from http://www.ie.ufrj.br/eventos/seminarios/pesquisa/texto06_05_02.pdf
Schmidt, P., Ott, E., Santos, J. L., & Fernandes, A. C. (2012). Perfil dos alunos do curso de Ciências Contábeis de instituições de ensino do sul do Brasil. ConTexto, 12(21).
Scott, J. (1989). Gender: a useful category of historical analysis. Educação e Realidade, 20(2). doi:10.1590/S1413-81232012001000006
SERT. (2014). Salariômetro. Retrieved 12 10, 2014, from Secretaria do Emprego e Relações do Trabalho: http://www.emprego.sp.gov.br/pesquisa-e-servicos/salariometro/
Sillas, E. P. (2011). Mulheres Contabilistas: Um estudo do nível de estresse das profissionais atuantes no Estado do Paraná. Dissertação de Mestrado, Pontifícia Universidade Federal do Paraná, Ciências Sociais Aplicadas, Curitiba.
Smithson, J., Lewis, S., & Cooper, C. (2004). Flexible Working and the Gender Pay Gap in the Accountancy Profession. Work Employment & Society, 18(1), 115-135. doi:10.1177/0950017004040765
Steil, A. V. (1997). Organizações, gênero e posição hierárquica-compreendendo o fenômeno do teto de vidro. Revista de Administração da Universidade de São Paulo, 32(3), pp. 62-69.
Yannoulas, S. C. (2011, jul./dez). Feminização ou Feminilização? Apontamentos em torno de uma nova categoria. Temporalis, 2(22), 271-292. Retrieved 05 12, 2014, from http://periodicos.ufes.br/temporalis/article/view/1368
Yannoulas, S. C. (2013). Trabalhadoras:análise da feminização das profissões e ocupações. Brasília: Abaré.
Zimmeck, M. (1986). Jobs for the Girls: The Expansion of Clerical Work for Women, 1850-1914. In A. V. John, Unequal Opportunities: Women "s Employment in England 1800-1918 (pp. 15 - 177). Oxford: Blackwell.
Publicado
31-03-2015
Como Citar
Lemos Júnior, L. C., Paulo da Silveira, N. S., & Santini, R. B. (2015). A feminização da área contábil: um estudo qualitativo básico. Revista De Educação E Pesquisa Em Contabilidade (REPeC), 9(1). https://doi.org/10.17524/repec.v9i1.1244
Seção
Artigos